O que você vai ler
Pucón é uma cidade pequena encravada entre lagos e vulcões no sul do Chile. Tem rua principal curta, turistas andando com mochila de trekking pelos mesmos cafés, e um vulcão ativo coberto de neve que domina o horizonte 365 dias por ano. Você olha pro vulcão pela janela do quarto. Olha pro vulcão quando senta na praça. Olha pro vulcão da janela do restaurante. O Villarrica é o papel de parede da cidade, e isso não cansa — pelo contrário, cada olhar muda a temperatura da luz sobre a neve lá em cima.
A gente foi em janeiro de 2026, em plena alta temporada de verão. Eu já tinha estado lá em 2016, numa viagem curta que terminou frustrada porque o tempo fechou e eu não consegui subir o vulcão. Voltei dez anos depois com a Izis e um pé machucado (por teimosia pré-viagem, não pela montanha) decidido a resolver essa pendência.
A pendência foi resolvida. Mas a viagem não foi só sobre o vulcão. Foi sobre entender o ritmo do sul do Chile: mais devagar, mais caloroso, mais fácil de conversar com gente de verdade. É esse ritmo que quero te contar aqui.
Como chegar em Pucón
Pucón fica a 758 km de Santiago, no sul do Chile, perto da fronteira argentina. Tem três maneiras de chegar e a gente fez uma delas.
Opção 1 — Avião até Temuco + ônibus ou transfer (o que fizemos)
Essa é a opção mais rápida, e foi a que escolhemos. LATAM e Sky Airline operam voos diários de Santiago (SCL) pra Temuco (ZCO), em cerca de 1h30 de voo. De Temuco a Pucón são mais 1h20 de estrada, seja por transfer privado, ônibus regional (empresas como JAC e Pullman Bus) ou táxi compartilhado. O aeroporto de Temuco tem balcões dessas empresas direto no saguão.
Pra nós, a combinação funcionou bem — chegamos em Pucón no meio da tarde, com tempo de tomar banho e sair pra jantar. Avião doméstico no Chile não tem a mesma burocracia de voo internacional, então o processo todo é bem mais leve.
Opção 2 — Ônibus direto Santiago → Pucón
Empresas como Turbus e Pullman Bus fazem a rota, normalmente em viagens noturnas de cerca de 10 horas. É uma opção bem mais barata que o avião, e os ônibus-leito chilenos são razoavelmente confortáveis — nada comparável a voar, mas pra quem tem tempo e quer economizar, funciona.
Opção 3 — Carro alugado desde Santiago
São umas 9 a 10 horas de estrada, quase tudo em rota pavimentada (a Ruta 5, a principal do Chile). É uma viagem linda, mas longa. Só vale se você pretende usar o carro bastante em Pucón (pra ir nas termas, por exemplo) ou se quer emendar com outros destinos como Valdívia, Puerto Varas e Chiloé. Se sua viagem é só Pucón, alugue o carro em Temuco mesmo, no dia, pra não pagar 10 horas de diária à toa.
Pucón cidade: bares, comida e o ritmo do sul
Uma das coisas que eu mais recomendo pra quem vai a Pucón é não tratar a cidade como ponto de apoio. Muita gente chega, já pensa só nas atividades na natureza, e nem senta num café do centro. Esse é um erro.
Pucón tem uma vida noturna pequena, mas boa. A rua Fresia é a principal, com restaurantes de frente pro lago Villarrica. Tem churrascaria argentina, pizzaria de forno a lenha, cervejaria artesanal com produção local (destaque pra Cervejaria Mestra e Cervejaria Cassino), e uma cena de cafés que faz qualquer lugar parecer o Brooklyn da Patagônia.
A comida chilena do sul é carne de cordeiro, salmão fresco do lago, batata, curanto (um ensopado de frutos do mar, carne e batata cozido no buraco, tradição indígena Mapuche). Pão amassado. Cerveja artesanal. Vinho do vale do Maipo a preço honesto.
A Izis e eu aproveitamos dois dias inteiros só pra ficar na cidade — um no começo da viagem e outro entre as atividades pesadas. Dormir até tarde, café da manhã com ovo e pão fresco, caminhada pela orla do lago, almoço longo. Pucón recompensa quem desacelera.
Termas Geométricas: por que vale a viagem de 1h30
No sul do Chile, em plena região vulcânica, o subsolo aquece a água a temperaturas que beiram os 45 °C. É natural, gratuito, e tem gente que construiu em cima disso. As mais famosas — e com razão — são as Termas Geométricas.
Elas ficam a 83 km de Pucón, em Coñaripe, na bacia do Rio Liucura. A viagem leva cerca de 1h30 de carro, sendo os últimos 17 km em estrada de ripio (cascalho). Não é estrada ruim no verão, mas pede atenção — principalmente se você nunca dirigiu em ripio. No inverno, tem que ter corrente pra neve.
O nome não é marketing. As passarelas vermelhas entre a floresta nativa são o sistema de circulação: você anda por elas escolhendo a piscina pela temperatura, desde as mais ferventes embaixo até uma bacia de água gelada alimentada por cachoeira lá no topo.
A entrada em 2026 varia conforme horário e dia da semana — adulto entre CLP 43.000 e 48.000 (mais ou menos R$ 270 a R$ 300 na cotação atual). Crianças de 3 a 13 anos pagam CLP 30.000. O preço é alto, não vou minimizar. Mas inclui toalha, armário com cadeado, água aromatizada de cortesia, e a experiência vale cada centavo.
Como aproveitar melhor
- Reserve online pelo site oficial (termasgeometricas.cl). A capacidade é limitada por design e pode fechar em dias cheios.
- Chegue cedo ou vá no final do dia. No verão, de meio-dia às 6 da tarde enche e faz calor. Chegar 10h ou depois das 18h é mais agradável.
- Leve troca de roupa seca pro caminho de volta. Ninguém quer pegar 1h30 de estrada molhado.
- Tente a piscina fria no topo. É alimentada por cachoeira de montanha. É quase crueldade, mas o choque térmico alternando frio-quente-frio é viciante.
- Vá com fome. Tem um quiosque bom, com pizzas no forno a lenha entre CLP 9 mil e 12 mil e sopas locais. É proibido levar comida de fora.
Escalar o vulcão Villarrica (a história completa)
Esse é o motivo pelo qual muita gente vai a Pucón. O Villarrica é um dos vulcões mais ativos da América do Sul, com cume a 2.847 metros, coberto de neve o ano todo. A última grande erupção foi em março de 2015. Mesmo assim, é possível subir — com guia certificado e equipamento técnico, nunca sozinho.
Eu tinha essa vontade há dez anos. Tentei em 2016 e o tempo fechou. Voltei em 2026 e, mesmo com um pé machucado de uma queda boba na semana anterior à viagem, decidi ir.
Como contratar
A subida só pode ser feita com agência certificada. No centro de Pucón tem várias — Sur Explora, Aguaventura, Politur, entre outras. Preços em 2026 giram em torno de CLP 100.000 a 130.000 por pessoa (aproximadamente R$ 650 a R$ 850), incluindo transfer de ida e volta da hospedagem, entrada no Parque Nacional Villarrica, guia bilíngue (1 pra cada 3 pessoas), e todo o equipamento técnico: botas, capacete, jaqueta e calça isolantes, luvas, piqueta (piolet), crampons e máscara de gás.
Reserve com pelo menos um ou dois dias de antecedência. E acompanhe a previsão do tempo — se o vento mudar a direção da fumaça pro lado da trilha, a subida é cancelada por segurança (e o dinheiro volta, ou você remarca).
O dia D
Saída às 6h da manhã. Chegada na base do vulcão por volta das 7h. Você tem a opção de pegar o teleférico (CLP 15-20 mil à parte) e economizar cerca de 50 minutos da subida. Eu não peguei. Subi desde a base.
A subida leva, em média, 5 a 6 horas. Começa numa trilha de pedra vulcânica, passa pra neve, e termina numa caminhada íngreme perto do cume, onde o guia te amarra em cordas e você usa piolet e crampons. Não é alpinismo técnico, mas é cansativo pra caramba. Você sobe carregando sua própria mochila com água, lanche e roupas extras.
Eu sofri. Sete horas de subida, o pé latejando, o corpo pedindo pausa, a cabeça insistindo em continuar. Mas no topo, a quase 3 mil metros, entre nuvens e cheiro de enxofre da cratera, o silêncio grita. A sensação de dever cumprido arrepia mais que o frio. Você percebe o quão pequeno é — e o quão forte pode ser. Estar no topo de um dos vulcões mais ativos da América do Sul é encarar, de perto, a força bruta da natureza. Respeito absoluto.
A descida: ski-bunda
E se a subida foi sofrimento, a descida foi diversão pura. A maior parte do caminho de volta na neve é feita sentado, usando a piolet como freio. É o famoso ski-bunda — você desliza pelas pistas improvisadas deixadas por quem desceu antes, risada solta, neve no rosto, e uma sensação de estar infringindo alguma lei da física.
A descida demora em torno de 2 horas. Mais 1 hora de caminhada nos trechos de pedra, mais o transfer de volta a Pucón. A gente chegou no hotel (ou na casa do amigo, no meu caso) por volta das 5 da tarde, exausto, com um quilo de neve nas roupas e uma certeza: algumas dores valem MUITO a pena.
Melhor época pra subir
A boa notícia: a subida opera o ano todo, porque o topo do Villarrica tem neve permanente. Cada estação tem seu charme. No verão (dezembro a março), a parte de baixo é sem neve e a subida é mais rápida. No inverno (junho a setembro), a neve começa mais baixo e a experiência é mais intensa — mas também é mais difícil, com mais cancelamentos por clima. Primavera e outono são intermediários e, na minha opinião, subestimados.
- Roupa de base térmica (camiseta e calça de segunda pele)
- Meias térmicas (o equipamento cobre o resto)
- Óculos de sol — a neve reflete MUITO
- Protetor solar fator 50+ (sério)
- 2L de água e barra de cereal / fruta seca
- Câmera pro topo (pro selfie mítico com a cratera fumegando)
- Paciência. Muita.
Onde ficar (e por que ficamos com um amigo)
Aqui posso ser mais honesto do que útil. A gente ficou na casa de um amigo chileno que fiz naquela primeira viagem em 2016 — dessas amizades que nascem num bar, num jogo de truco improvisado, e duram anos. Isso é a parte boa de voltar ao mesmo lugar depois de uma década.
Pra quem vai pela primeira vez, as opções mais indicadas em Pucón são:
- Centro: pra ficar perto de tudo (restaurantes, agências de turismo, ônibus). Hotéis e hostels de todos os preços. Ideal pra quem não vai alugar carro.
- Zona do lago (Playa Grande / Playa Pucará): charme e vista pro lago. Hotéis boutique e cabañas. Um pouco mais caro.
- Caminho para o vulcão: cabañas isoladas, vista privilegiada, muito mais tranquilidade — mas exige carro.
A Booking.com tem boa cobertura em Pucón em todas as faixas. Hostels a partir de USD 20/noite compartilhado, hotéis 3 estrelas por USD 80–120, boutiques na faixa dos USD 180–250.
Roteiro dia a dia e orçamento
Aqui está o roteiro exato que a gente fez, com dicas pra adaptar:
Dia 1 — Chegada
Voo manhã cedo Santiago → Temuco. Transfer até Pucón (1h20). Check-in. Primeira noite na cidade: jantar na Fresia, cerveja artesanal, caminhada pela orla do lago.
Dia 2 — Termas Geométricas
Saída 10h, chegada nas termas 11h30. Dia inteiro nas piscinas, almoço no quiosque, banho na cachoeira fria no topo. Retorno ao fim da tarde. Noite mais calma.
Dia 3 — Descanso ativo na cidade
Manhã sem pressa. Café num dos cafés da cidade, caminhada até a Playa Grande. Almoço leve. Tarde: bike pela orla ou passeio de barco no lago (opcional, CLP 15 mil). Noite cedo — dia seguinte exige.
Dia 4 — Vulcão Villarrica
Saída 6h. Retorno 17h-18h. Chuveiro longo, jantar nutritivo (carne, carboidrato, muito líquido). Dormir cedo.
Dia 5 — Recuperação e volta
Manhã na cidade, última refeição chilena (aquele sanduíche Barros Luco, gigante e com queijo derretido), café da tarde, transfer pro aeroporto de Temuco, voo de volta.
Estimativa por pessoa em janeiro de 2026. Valores em hospedagem e voos variam muito por data e antecedência de compra.
Planeje Pucón com quem já foi — sem planilha no WhatsApp
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Criar minha viagem pro Chile →Pucón tem aquele efeito que só os lugares de verdade têm: você volta melhor. Mais cansado, mais cheio de calo no pé, mais torto de carregar mochila. Mas melhor. Porque o que fica de uma viagem não é o que aparece na foto — é a história que você conta de volta em casa, a cerveja artesanal de que você lembra o nome, e a certeza de que algumas pendências a gente resolve com a altitude.
Se for, manda uma foto do topo pra gente — a gente gosta de ver a neve nova nessa paisagem que, no fundo, não muda nunca.
